Assédio Moral no Trabalho como Estratégia de Gestão: Estudo de Casos em uma Instituição Pública de Santa Catarina
DOI:
https://doi.org/10.33637/2595-847x.2025-306Palavras-chave:
assédio moral organizacional, saúde mental, serviço público, violência institucionalResumo
O presente artigo analisa indícios de assédio moral organizacional em uma instituição pública estadual, a partir de uma investigação conduzida por equipe multiprofissional do projeto Caminhos do Trabalho Santa Catarina. A demanda foi originada por solicitação do Ministério Público do Trabalho, com foco na caracterização de práticas abusivas nas relações laborais. A metodologia empregada envolveu abordagem quali-quantitativa, fundamentada na escuta dos trabalhadores e na triangulação de dados. Foram utilizados instrumentos validados, incluindo o Questionário Sociodemográfico, o Inventário de Atos Negativos (NAQ-R) e o SRQ-20 para rastreio de transtornos mentais comuns. Adicionalmente, foram aplicadas 13 perguntas abertas e realizada uma sessão de grupo focal com os participantes, cujos dados foram analisados por meio da Análise de Conteúdo (Bardin, 2016) e do software IRaMuTeQ, com aplicação de análises de frequência, similitude e prototípica. Participaram 13 trabalhadores que relataram experiências reiteradas de desqualificação, constrangimento, humilhação, isolamento, abuso de poder e deterioração proposital das condições de trabalho, caracterizando um ambiente organizacional favorável ao adoecimento. Os resultados evidenciam prevalência de sofrimento psíquico, com 11 participantes apresentando indicativo de transtorno mental comum. A análise integrada dos dados sugere a presença de um padrão sistemático de assédio moral organizacional, com impactos significativos à saúde mental, à motivação e à coesão das equipes. O estudo reforça a relevância de políticas públicas voltadas à prevenção da violência institucional e à promoção da saúde do trabalhador, com ênfase no setor público. Essa constatação é respaldada por uma intervenção realizada no âmbito do Projeto Caminhos do Trabalho, a qual subsidiou uma deliberação do Ministério Público de Santa Catarina.
Downloads
Referências
ARAÚJO, A. R. A interface do assédio moral organizacional e o poder de direção do empregador. In: OLIVEIRA, R. T. de; TOLFO, S. da R.; KÜNZLE, L. A.; ZANIN, F. da C.; PRISCO, C. M. F. (org.). Assédio moral no trabalho: fundamentos e ações. Porto Alegre: Editora Lagoa, 2017. p. 97–126.
CAMARGO, B. V. Método e procedimentos de pesquisa em ciências humanas e psicologia. Curitiba: CRV, 2020.
CAMARGO, B. V.; JUSTO, A. M. Tutorial para uso do software IRaMuTeQ: interface de R pour les analyses multidimensionnelles de textes et de questionnaires. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2021.
CONTROLADORIA-GERAL DA UNIÃO (Brasil). Assédio moral e sexual. Governo Federal, [s.d.]. Disponível em: https://www.gov.br/cgu/pt-br/centrais-de-conteudo/campanhas/integridade-publica/assedio-moral-e-sexual. Acesso em: 14 fev. 2025.
CONTROLADORIA-GERAL DA UNIÃO (Brasil). Guia Lilás: orientações para prevenção e tratamento ao assédio moral e sexual e à discriminação no Governo Federal. Brasília, DF: Governo Federal, 2023. Disponível em: https://repositorio.cgu.gov.br/bitstream/1/93176/1/Guia_para_prevencao_assedio.pdf. Acesso em: 18 fev. 2025.
CHRIST, H. D. Estudo de adaptação e fidedignidade do Questionário de Atos Negativos – Revisado (QAN-R) para o português do Brasil. 2011. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2011. Disponível em: https://repositorio.pucrs.br/dspace/handle/10923/4932. Acesso em: 18 fev. 2025.
EINARSEN, S.; AASLAND, M. S.; SKOGSTAD, A. Destructive leadership behaviour: a definition and conceptual model. The Leadership Quarterly, v. 18, p. 207–216, 2007. DOI: 10.1016/j.leaqua.2007.03.002.
EINARSEN, S.; HOEL, H.; NOTELAERS, G. Measuring exposure to bullying and harassment at work: validity, factor structure and psychometric properties of the Negative Acts Questionnaire-Revised. Work & Stress, v. 23, n. 1, p. 24–44, 2009. DOI: 10.1080/02678370902815673.
EINARSEN, S.; HOEL, H.; ZAPF, D.; COOPER, C. L. Bullying and harassment in the workplace. 3. ed. London: Taylor & Francis Group, 2020.
FLAMENT, C.; ROUQUETTE, M.-L. Anatomie des idées ordinaires. Paris: Armand Colin, 2003.
FLICK, U. Uma introdução à pesquisa qualitativa. Porto Alegre: Bookman, 2004.
FREITAS, M. E.; HELOANI, R.; BARRETO, M. Assédio moral no trabalho. São Paulo: Cengage Learning, 2008.
GASKELL, G.; BAUER, M. W. (org.). Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual prático. Petrópolis: Vozes, 2002.
GONÇALVES, J.; OLIVEIRA, R. T. Assédio moral no trabalho: aspectos fundamentais de entendimento e enfrentamento. In: OLIVEIRA, R. T. de; TOLFO, S. da R.;
KÜNZLE, L. A.; ZANIN, F. da C.; PRISCO, C. M. F. (org.). Assédio moral no trabalho: fundamentos e ações. Porto Alegre: Editora Lagoa, 2017. p. 23–50.
HELOANI, R.; BARRETO, M. Assédio moral: gestão por humilhação. Curitiba: Juruá, 2018.
HIRIGOYEN, M.-F. Mal-estar no trabalho: redefinindo o assédio moral. 3. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.
HIRIGOYEN, M.-F. Assédio moral: a violência perversa no cotidiano. 9. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Cor ou raça. Educa – Jovens: Conheça o Brasil: População – Censo Demográfico 2022. Disponível em: https://educa.ibge.gov.br/jovens/conheca-o-brasil/populacao/18319-cor-ou-raca.html. Acesso em: 15 dez. 2025.
LEYMANN, H. The content and development of mobbing at work. European Journal of Work and Organizational Psychology, v. 5, n. 2, p. 165–184, 1996.
MORGAN, D. L. Focus groups as qualitative research. Thousand Oaks: Sage, 1997.
PODER JUDICIÁRIO DE SANTA CATARINA (Brasil). Cartilha de sensibilização e conscientização de magistrados, servidores, estagiários e demais colaboradores do PJSC. Florianópolis: PJSC, 2020. Disponível em: https://www.tjsc.jus.br/documents/10181/7870351/cartilha_assedio.pdf/4dda5806-f326-bad6-46a8-2320c3133b41?t=1648821650508. Acesso em: 18 fev. 2025.
TOLFO, S. R. O assédio moral como expressão da violência no trabalho. In: MARTINS, F.; ARAÚJO, J. N. G. de; SOUZA, M. de (org.). Dimensões da violência: conhecimento, subjetividade e sofrimento psíquico. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2011. v. 1, p. 187–206.
TOLFO, S. R.; PELLEGRINI, P. G.; GONÇALVES, J.; NUNES, T. S. Relações interpessoais e assédio moral: relato de um diagnóstico em uma organização. Boletim – Academia Paulista de Psicologia, São Paulo, v. 44, p. 88–99, 2024.
TRAD, L. A. B. Grupos focais: conceitos, procedimentos e reflexões baseadas em experiências com o uso da técnica em pesquisas de saúde. Physis: Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 19, n. 3, p. 777–796, 2009.
WACHELKE, J.; WOLTER, R. Critérios de construção e relato da análise prototípica para representações sociais. Psicologia: Teoria e Pesquisa, v. 27, n. 4, p. 521–526, 2011.
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2026 Laborare

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 4.0 International License.